Chegou ao fim um ciclo da minha vida, a participação nos Jogos Olímpicos foi a concretização de um sonho que moveu a minha vida e a de muitas pessoas à minha volta.
A experiência de participação nos Jogos Olímpicos é fantástica e deixa um “bichinho” e ansiedade para tentar o apuramento para outras edições.
Antes de falar sobre a minha presença em Pequim, não posso deixar de recordar a preparação e o apuramento. Foram 2 anos de dedicação “exclusiva” à persecução do “Sonho Olímpico”. Exclusiva entre aspas porque tanto eu como o Helder não parámos as nossas vidas para realizar este projecto. Durante este período terminei a Licenciatura em Engenharia Electrotécnica e de Computadores no Porto e o Helder continuou com êxito os seus projectos no Colégio Militar, Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, Centro de Convívio e Desportivo de Vale Milhaços e na Selecção Nacional de Pentatlo Moderno.
Foi um período bastante exigente e cansativo e não posso deixar de lembrar e agradecer a todos os que nos ajudaram e apoiaram a tornar o nosso sonho em realidade. Muito Obrigado! Um agradecimento também para os atletas que, mesmo em período de férias, vieram ajudar-me a treinar e a preparar a competição.
A viagem não tinha nada de diferente. Depois de muitas horas entre aviões e aeroportos e com alguma ansiedade chegámos a Pequim. Logo no aeroporto era possível prever que a cidade estava totalmente dedicada aos Jogos. As medidas de segurança, a recepção, os cartazes dos Jogos, a enorme quantidade de voluntários…
Ao chegar à Aldeia Olímpica e depois de cumprir os procedimentos necessários, fomos conhecer os alojamentos onde iríamos ficar instalados durante a estadia em Pequim.
A Aldeia Olímpica estava fantástica e depois da competição tive a oportunidade de a explorar um pouco mais e fiquei fascinado com o que encontrei: a decoração dos espaços exteriores e os jardins estavam espectaculares, o refeitório era enorme e oferecia uma alargada escolha, várias lavandarias, várias salas de videojogos, salas de computadores, ginásio, piscina, campos de jogos, sala para ver filmes de cinema. Para além disto, existia uma rede de transportes que além de permitir chegar aos locais de treino e das competições, também possibilitava a viagem aos locais históricos, nomeadamente a Praça de Tiananmem e a Grande Muralha.
Um dos momentos altos dos Jogos Olímpicos e também muito aguardado pelos participantes é a Cerimónia de Abertura e consequente desfile no Estádio Olímpico. Diz quem viu que foi uma cerimónia memorável que a organização ofereceu ao público um espectáculo inesquecível.
A delegação portuguesa saiu da Aldeia Olímpica sensivelmente à hora que se iniciou a cerimónia e fomos levados para um pavilhão onde as delegações nacionais aguardavam até ao momento de desfilar no Estádio Olímpico. Nesse pavilhão existiam monitores gigantes que transmitiam o desfile mas, para os coleccionadores de pins, isso pouco interesse tinha. Nos corredores do pavilhão todos os interessados podiam trocar os pins da sua delegação pelos de outras delegações. Também era frequente encontrar nos corredores atletas mais famosos que se dispunham a posar para as câmaras daqueles que queriam guardar aquele momento.
Após uma espera mais ou menos longa, fomos encaminhados para o estádio. Sempre bem-dispostos e liderados pelo Nélson Évora entrámos no Ninho de Pássaro…
Não sei se sou capaz de pôr por palavras o que senti ou pensei no momento em que entrei no estádio. Tinha o coração acelerado e senti um enorme orgulho em mim próprio, realização pessoal, sentia os olhos postos em mim, mas não me sentia intimidado, tinha realizado o meu sonho!
Quando chegámos ao lugar que nos estava destinado, eu e o Helder abraçamo-nos… 13 anos depois de nos termos conhecidos e começado a trabalhar juntos realizámos o sonho, que alguns apelidaram de loucura, de representar Portugal nos Jogos Olímpicos. Tínhamos sofrido e lutado muito, aquele era o nosso momento!!
À medida que o desfile ia terminando, os participantes iam-se misturando com os das outras delegações, deixando de ser claro qual era o espaço de cada delegação. Após o desfile começou o fogo de artifício e o espectáculo do acender da Chama Olímpica, por parte de vários atletas, nomeadamente o famoso campeão chinês Li Ning, que deu a volta ao estádio suspenso, simulando o desenrolar de um papiro com imagens históricas dos Jogos Olímpicos.
O pavilhão da esgrima ficava situado junto dos mais emblemáticos pavilhões desportivos dos Jogos, o Ninho de Pássaro e o Cubo de Água. Durante o período que estive em Pequim e que antecedeu a prova, treinei neste pavilhão, num espaço destinado exclusivamente ao treino. O local de treino tinha cerca de 10 pistas e era um espaço enorme que fazia inveja a qualquer pavilhão onde se realizam as competições nacionais. Havia também uma pequena salinha onde a organização tinha à disposição dos atletas e treinadores um pequeno buffet.
Para a competição, aqueci num espaço próprio dividido em 2 espaços: um para o aquecimento 1 hora a 1h30 antes do assalto e outra em que apenas podíamos aceder 30 minutos antes do horário do assalto.
Poucos momentos antes de entrar na área de competição apresentámo-nos numa sala onde o material era controlado e a publicidade não autorizada era retirada ou tapada. Um pormenor interessante era o facto de a porta que dava acesso à área de competição estar encerrada com uma corrente e um cadeado que apenas eram retirados no instante antes de os atletas entrarem.
A área de competição não era muito grande mas estava bastante agradável. A pista da final estava no centro e era a única pista elevada. As pistas das eliminatórias eram coloridas, como é habitual, e estavam nos cantos do palco onde se desenrolava a competição. Outro pormenor é que os presidentes de júri não presidiam ao nível das pistas, isto é, não estavam no palco mas sim ao nível do solo. Um detalhe que podia ainda mais complicada a já difícil missão dos presidentes de júri. A iluminação da área de competição era variável e quando os atiradores iniciavam os assaltos, a iluminação do pavilhão era reduzida e a das pistas era aumentada. Nos topos da área de competição estavam os habituais monitores com o quadro de eliminação directa e alguma informação sobre os assaltos que estavam a decorrer.
Quando subi ao palco e me liguei na pista, a iluminação alterou-se e a partir desse momento mal conseguia ver o público, o presidente de júri e também o Helder. Por outro lado o adversário era mais nítido e aquela iluminação levava-me a estar ainda mais focado nele.
O primeiro adversário, o sul-africano, era totalmente desconhecido para nós, mas o Helder tinha-me chamado à atenção para alguns pormenores e alertou para os cuidados a ter em maior consideração e o assalto acabou por decorrer exactamente como ele tinha previsto.
O início do assalto foi um pouco complicado, as acções não me estavam a sair bem e comecei a perder. Entretanto veio o intervalo, eu e o Helder falámos, acertei os detalhes que faltavam, libertei-me e controlei o assalto.
O tempo entre os assaltos era reduzido e voltámos à sala de aquecimento para rapidamente preparar o assalto com o atirador polaco.
Apesar de nunca ter enfrentado o atirador polaco, já o conhecia e ao seu estilo de jogo. É um grande lutador e, embora seja um grande esgrimista, teve que lutar bastante para alcançar um lugar na Selecção Olímpica da Polónia.
O Helder tinha-me preparado para o jogo com o polaco e, apesar de ter começado a vencer, ele conseguiu ser superior. Terminei o jogo algo frustrado, eu sei que podia ter feito mais. Não digo que poderia ter vencido, mas sei que podia ter dado mais luta, foi tudo tão rápido!
Durante a fase de qualificação e de preparação joguei muitos assaltos, bati-me bem com grandes atiradores e em Pequim apenas joguei 2! Soube a pouco!
Terminou assim a minha participação nos Jogos Olímpicos, mas ainda havia tanta coisa para ver durante os dias que me restavam em Pequim. Uma das coisas que não podia deixar de fazer era apoiar os outros portugueses nas suas competições.
Para além de ver outras competições de esgrima ainda tive a possibilidade de ver diferentes modalidades, algumas das quais nunca tinha visto, nem sequer na televisão.
Antes de ir para a China, tinha prometido a mim mesmo que não podia sair de lá sem conhecer um pouco da cultura e visitar alguns dos monumentos e lugares mais famosos. Promessa cumprida! Não foi fácil. No dia em que visitei a Cidade Proibida chovia imenso e cheguei à Aldeia Olímpica completamente encharcado! Um conselho que me foi dado, que eu segui e agora vos deixo é que, se visitarem a Cidade Proibida, aluguem um guia electrónico e o usem durante a visita. Existem guias em português e, para além das explicações sobre o que estamos a visitar, funciona como mapa da cidade que assinala os locais que já foram visitados.
Para além da Cidade Proibida, conheci também a Grande Muralha, a Residência de Verão do Imperador, o Silk Market e a Praça de Tiananmen. Obras verdadeiramente fantásticas, tanto pela sua grandiosidade como pela sua beleza.
Num dos passeios pela cidade, passei por umas banquinhas de comida e não fui capaz de provar nada. Para quem quiser imaginar, algumas das coisas que vi foram: cobras, lagartos, escorpiões, larvas, etc.
Com o passar dos dias na Aldeia Olímpica, os elementos da missão portuguesa, iam-se conhecendo melhor levando a um ambiente animado e nem a dureza dos treinos ou das competições abalava a boa disposição da missão. Todos nós, desde atletas a dirigentes, tínhamos dado o nosso melhor para estar em Pequim e sabíamos a nossa missão. É verdade que as coisas nem sempre corriam como todos gostaríamos mas o mais importante era que o nosso empenho e entrega fossem totais.
Na hora do regresso, a vontade de voltar a casa e tirar férias era notória, porém deixar para trás o ambiente olímpico e a vivência na Aldeia Olímpica iria deixar saudades.
A viagem de regresso parecia não ter fim, mas a boa disposição do Marco Vasconcelos ajudava a suportar as longas horas passadas nos aviões e nos aeroportos.
À chegada a Lisboa, sabia que a minha mãe e a minha irmã estariam à minha espera no aeroporto, faziam questão disso, já que apenas tinham tido oportunidade de me receber aquando do meu regresso do Campeonato do Mundo de Turim. A minha surpresa foi ver as pessoas que se deslocaram também ao aeroporto e aqueles que querendo fazê-lo e não podendo, enviaram mensagens de apoio e de felicitação. Obrigado por estarem sempre do meu lado!
Encerrado o ciclo olímpico, é altura de descansar e ganhar forças para começar a percorrer o longo caminho que espero me leve até Londres 2012!
Set 27 2008
Jogos Olímpicos de Pequim aos meus olhos…
Ago 03 2008
O meu sonho é…
A composição que vos apresento foi escrita por mim quando tinha 12/13 anos, como trabalho para a disciplina de Português.
Passados cerca de 12 anos vou concretizar o sonho de criança (há muito que deixei de querer enveredar pela carreira militar, porém… nunca se sabe).
Por várias vezes os jornalistas me perguntaram quando é que surgiu o sonho de ir aos Jogos Olímpicos, penso que esta composição responde a essa questão.
Este trabalho foi-me entregue pela minha professora de Português da altura, Prof. Paula Gonçalves, que fez questão de me procurar e entregar, com um brilho nos olhos de quem possui um tesouro precioso.
Estou muito grato à Prof. Paula Gonçalves por me ter oferecido este “tesouro” que estava longe de imaginar que existia. Jamais irei esquecer esta professora por causa de outra composição que elaborei, mas essa sim, tenho bem presente na memória.
Jul 03 2008
Vamos mas é jantar… Sexta – feira dia 4 às 8h30m
Porque as tristezas não ganham provas, e porque temos que andar bem alimentados, particularmente o Videira que ainda tem muito que fazer esta época, vamos jantar ao restaurante Costini amanhã, sexta – feira dia 4, às 8 h30 m.
Venham todos e cheguem a horas porque há quem tenha que sair para Kiev de madrugada.
O jantar é aberto todos os atiradores da AAACM e a quem queiram trazer convosco. O jantar é também aberto a todos os amigos da AAACM.
Jul 01 2008
Comunicado da Federação Portuguesa de Esgrima
Relativamente à carta aberta do atleta Joaquim Videira, a Direcção da Federação Portuguesa de Esgrima tem a posição seguinte:
- A Direcção não discute, nem pode discutir, os critérios técnicos que presidem à escolha dos atletas que representam as selecções nacionais.
- A Direcção reitera a sua confiança nos elementos que compõem a Direcção Técnica da FPE e nos coordenadores de arma que decidem quem representa as selecções nacionais.
- Relativamente à equipa de espada que vai competir nos Campeonatos da Europa, a Direcção zelou para que fossem cumpridos à risca os regulamentos em vigor.
- A Direcção da Federação Portuguesa de Esgrima congratula-se pela vontade do atirador Joaquim Videira representar a equipa nacional de espada nos Campeonatos da Europa, mas aceita a opinião dos seus técnicos no sentido de não o incluir nesta prova.
- O atirador Joaquim Videira não foi “excluído” da equipa, ao contrário do que o próprio afirma, já que nunca chegou a ser incluído na equipa escolhida para esta competição.
- Passados os Jogos Olímpicos, prova a que a Direcção da FPE quer que o atirador Joaquim Videira chegue nas melhores condições, esperamos poder contar com o talento natural e as qualidades competitivas do atleta para tornar a equipa nacional de espada cada vez mais forte.
- A Direcção da FPE lutou sempre, e continuará a lutar, pelo desenvolvimento da Esgrima portuguesa e dos atiradores nacionais e considera que, até ao momento, todas as decisões técnicas tomadas deram frutos positivos.
O Presidente da Federação Portuguesa de Esgrima
Frederico Valarinho
Jun 26 2008
Porque não posso jogar a prova de equipas no Campeonato da Europa de Kiev ?
(Carta Aberta de Joaquim Videira – 1º classificado no Ranking Nacional, melhor Português no Ranking Internacional, atleta em preparação para os Jogos Olímpicos)
Escrevo esta carta na esperança de que alguém me ajude a compreender a razão pela qual sou excluído da equipa que disputará a competição por equipas no Campeonato da Europa de Kiev.
Tento analisar esta situação por vários prismas e em nenhum deles consigo encontrar razões para tal decisão.
Quando tive conhecimento da minha exclusão da Equipa Nacional para a competição por equipas, a primeira pessoa com quem contactei foi o meu treinador para tentar perceber se ele tinha sido consultado e/ou estava de acordo com esta decisão. Constatei que o meu treinador não foi consultado, e que a sua orientação é a de que necessito de jogar o mais possível e com o ritmo o mais elevado possível antes dos Jogos Olímpicos. De seguida contactei o meu clube, a Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, que me informou não ter qualquer informação adicional sobre as causas da minha exclusão da prova.
No sentido de tentar compreender esta situação, dirigi-me ao treinador Nuno Frazão, treinador/coordenador/seleccionador da equipa de espada, para tentar perceber a razão que levou à minha exclusão da Equipa Nacional. A justificação apresentada pelo treinador Nuno Frazão é que eu tenho um nível avançado em relação ao resto da equipa e por essa razão os restantes elementos necessitam de jogar esta e outras competições de equipas, para que no futuro possamos estar a um nível superior. Continuo sem compreender…
Não sendo uma opção técnica/estratégica/táctica do meu treinador, passo a expôr os factos relevantes para a análise desta situação:
• Pelo regulamento de Seniores 2007/2008, sou o único atirador de espada com mínimos para representar Portugal no Campeonato de Europa de Seniores 2008;
• Sou o 1º classificado no Ranking Nacional e o melhor classificado no Ranking Internacional;
• Pertenço à Equipa Nacional de Seniores desde os meus 18 anos;
• Os treinadores/coordenadores/seleccionadores nunca estiveram presentes nos diversos encontros de equipas que disputámos, mas sim o meu treinador;
• As minhas diversas prestações em encontros de equipas nunca hipotecaram o resultado final, antes pelo contrário.
A única vez que me lembro de não ter integrado a equipa, foi no passado Campeonato da Europa, por motivos de estudo. Mesmo assim, estes motivos decorreram de a Federação Portuguesa de Esgrima não ter enviado atempadamente os pedidos de alteração de exames, que seriam necessários para que pudesse apresentar-me na prova sem prejuízo desses mesmos exames.
Se sou o mais experiente dos possíveis convocados;
se sou o único que tenho mínimos para estar no Campeonato da Europa;
se sou o 1º do Ranking Nacional e o melhor classificado no Ranking International;
se as pessoas que intervêm nesta decisão nunca estiveram presentes nos encontros de equipas;
se as minhas prestações em encontros de equipas não têm prejudicado os mesmos, antes pelo contrário;
se o meu treinador não vê qualquer inconveniente, pelo contrário, vê vantagens,
Porque não posso jogar a prova de equipas no Campeonato da Europa de Kiev ?
Se as pessoas intervenientes nesta tomada de decisão – treinadores/coordenadores/seleccionadores nacionais de espada, o director técnico nacional e a Direcção da Federação que aprovou e apoiou esta decisão – não me informaram nem ao meu treinador, será que alguém me pode ajudar a compreender o que se está a passar?
Será que não tenho razões para ser crítico de alguns procedimentos e/ou pessoas que de algum modo estão ligada à Federação Portuguesa de Esgrima?
Grato pela atenção dispensada
Cordialmente,
Joaquim Videira
Mai 22 2008
Equipa da Iniziomedia
Pelo facto de estar a realizar um trabalho para a RTP, tive a oportunidade de conhecer uma equipa de audiovisuais da Iniziomedia, a Sofia, o Luís Angelo, o Hugo, o Carlos, o Énio e o Bruno, com quem tem sido um enorme prazer trabalhar.
Entre filmagens consegui convencê-los a experimentarem a esgrima. Aqui fica o vídeo de um dos combates:
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